Hebdômadas

Dizem que nossas vidas podem ser divididas em ciclos de sete anos, ou septênios se você preferir. Eu gosto mais da palavra de origem grega hebdômada (que, na verdade, pode ser usado para dias, meses ou anos). A cada hebdômada nossas vidas mudam.

A cada sete anos temos um novo ciclo de renovação. Alguns cientistas dizem que nossas células se renovam completamente a cada sete anos. Antropólogos e psicólogos dizem que não são somente as células, mas toda a nossa psique e características comportamentais.
Continuar lendo Hebdômadas

Anúncios

Sampa

Não é pelo trânsito impossível
Não é pelas 12 milhões de pessoas que moram ali
Não é pela poluição (do ar, do som, dos muros)
Não é pela segurança (ou falta dela!)
Não é pela (não-)educação do cidadão médio
Não é pelo metro superlotado
Não é pela falta d’água que acontece a cada 2 anos
E nem pelas 4 estações em um único dia

É sobre entrar com 1 amigo em uma balada e sair com 15
É sobre comer cachorro-quente com purê de batata
É sobre ter todas as cozinhas do mundo disponíveis a qualquer hora do dia (ou da noite)
É sobre poder falar “enfia no cu essa merda” e te entenderem
É sobre encontrar todos os sotaques em um mesmo lugar
É sobre matar essa minha eterna luta interna entre amar e odiar Sampa

É sobre esse constante buraco no meu peito em viver em qualquer lugar do mundo e ao mesmo tempo não me sentir em casa em nenhum – nem mesmo em São Paulo.

Museum of Broken Relationships

É em Zagreb, capital da Croácia, onde fica o Museum of Broken Relationships (ou, numa tradução bem livre, Museu das Relações Terminadas). E por “relações”, o museu não entende só como relações amorosas, não. Nesse termo, e no museu, tem também as relações de pais e filhos e familiares separados pela guerra. A ideia do museu é criar um espaço leve, mostrando objetos que significaram muito para um casal (ou parentes) e junto com cada objeto uma pequena história narrando como aquele objeto acabou fazendo parte (e encerrando) aquela relação.

Pra mim foi uma experiência muito intensa. Em cada objeto, em cada palavra, dava pra sentir a emoção ainda impregnada naquelas histórias.

Continuar lendo Museum of Broken Relationships

Diário das minhas férias europeias – Capítulo Secundíssimo

Celular despertou às 7h30 da madrugada. Sou desses que mesmo quando estou de férias acordo cedo para aproveitar o dia. Me troquei e saí pra tomar café da manhã. Já tinha (ou AINDA tinha) gente no bar do hostel bebendo – nossa senhora dos fígados, dai-nos Eparema!

A filosofia dos hostels (ou antigamente chamados de Albergues da Juventude) é custar pouco e permitir que você possa viajar sozinho e ainda assim conhecer pessoas do mundo todo. Então a infraestrutura é geralmente simples e com apenas o essencial para permitir que você durma, tome banho e conheça pessoas. Ou seja, cafés da manhã estilo continentais “hotel 5 estrelas” não existem. Fato.

O hostel que eu fiquei tem uma parceria com o restaurante que fica bem em frente e ele oferecem um café da manhã bem vagabundo no estilo buffet, só com presunto, queijo, pão, manteiga, nescafé (sim. NES CA FÉ. Aquela bagaça instantânea com gosto de água suja)  e…. acho que era só isso. Comi o que deu pra comer e fui passear um pouco.

.

Coloco o pé na rua e PUM. Um frio ducaralho em pleno verão. Adivinha quem não tinha blusa de frio? Isso. O Francisco.

Continuar lendo Diário das minhas férias europeias – Capítulo Secundíssimo

Diário das minhas férias europeias – Capítulo Primésimo

O legal aqui na Itália é que você que não tem direito a férias depois de completar um ano de empresa. Você recebe suas férias no dia que você entra na empresa, podendo usufruí-las “quando quiser”.

Dito isso, a Itália praticamente fecha em agosto. Todas as empresas, restaurantes, lojas, academias e afins fecham. Sério. FECHAM. A empresa que eu trabalho fecha nas duas semanas centrais de agosto e, sendo assim, as férias são obrigatórias.

.

Sabendo que teria férias compulsórias, e considerando que Ferrara fica um deserto em agosto, comecei a procurar destinos baratos. Queria ir pra Ibiza, mas lembrei que estou uma bola de gordo e mudei de ideia. Jamais iria competir com aqueles corpos MA RA VI LHO SOS dos caras de lá. Depois pensei na Grécia. História, praias, gente linda… Caro demais. Espanha, caro. Voltar pra Amsterdam, caro. Alemanha, não tinha praia. Portugal, caro. E assim foi até que eu encontrei a Croácia. Sim. Croácia. Voo de ida e volta (chegada em Zagreb e retorno por Dubrovnik) por menos de 100 euros. Pesquisei um pouco sobre os hostels da região e não tinham muitas opções, mas os preços eram bem bacanas. Ou seja… Vambora. Continuar lendo Diário das minhas férias europeias – Capítulo Primésimo

Desativei minha conta do Facebook.

Desativei minha conta do Facebook.
Fim.

.

Nada glamouroso, sem nenhum fundamento filosófico, ausência de movimentos ideológicos. Só desativei.

Estou há quase 24h sem Facebook. E me sinto incrivelmente bem. Não ler os posts compartilhados que me irritam, não ver as mesmas fotos de gatinhos fofinhos, nem aquelas correntes sem fim, ou então as fotos com frases inspiradoras da Clarice Lispector, que a própria nunca disse. É muito libertador.

Acho que nos últimos anos eu acabei me tornando um like-dependente. Aquela pessoa que se esforça para fazer posts engraçados ou polêmicos só para ganhar um like e receber vários comentários. Essa condição de like-dependente fez com que eu me distanciasse cada vez mais de quem eu era (e sou). Então resolvi simplesmente desativar minha conta do Facebook.

Instagram continua. Lá eu coloco as minhas fotos mais fofinhas e me deixa muito feliz olhar minha própria galeria e ver minha evolução fotográfica ao longo dos anos. O blog também continua. É aqui o meu espaço de publicação daquilo que quero, sem me preocupar com o que vão pensar do meu post. Aqui lê quem entra para ler, não tem um algoritmo decidindo o que você vai ler na sua timeline.

Aproveitando o ensejo (de que eu estou aqui escrevendo esse texto), acho que vou começar a usar esse blog com uma frequência ainda maior. Menos textos filosóficos e mais como um espaço de expressão e reflexão pessoal.

.

Desculpe-nos o transtorno e agradecemos a compreensão.
Ass. A gerência.

A obra de arte do livro da vida

Sua vida é escrita em tinta indelével. Não há como voltar para apagar o passado, ajustar os seus erros, ou preencher oportunidades perdidas. Quando aquele instante acabou, o seu destino está selado. Mas se você olhar mais de perto, vai perceber que a tinta nunca seca de verdade em nenhuma das nossas experiências. Elas podem mudar os seus significados de acordo com o quanto você olha para elas.

Existem maneiras de pensar sobre o passado que não são somente nostalgia ou arrependimento. Um tipo de questionamento que enriquece a experiência depois de terminada. Viver no passado é permitir que um contexto fresco pingue ao longo dos anos, é completar o quadro; manter as memórias vivas, e não só uma caricatura das mesmas. Então você poderá olhar honestamente para uma experiência muito dolorosa e chama-la pelo seu nome.

O tempo é a força mais poderosa do universo. Ele pode transformar um gigante em alguém totalmente humano, apenas deixando que ele passe. Ou então te dizer como você realmente se sentia em relação a alguém, mesmo que você não conseguisse naquela época. Ele pode colocar seus sonhos de infância alinhados com o contexto dos pesos adultos ou transformar um consenso universal em uma moda passageira embaraçosa. Ele pode expor rachaduras de um relacionamento que antes parecia perfeito. Ou conservar uma amizades baseada apenas em pensamentos, mesmo que vocês nunca mais se vejam. Ele pode transformar a sua maior vergonha na fonte da sua maior força, ou transformar um banho de orgulho em algo completamente insignificante, feito pelas razões erradas, ou fazer o que parecia ser o fim do mundo se tornar uma parte natural da vida.

O passado ainda é basicamente uma página em branco, então talvez nós estejamos condenados a repeti-lo. Mas ainda vale a pena olhar para ele se isso nos trouxer para mais próximo da verdade.

Talvez não seja tão ruim viver no passado, e nos afundarmos nas memórias, para conter a simplificação do tempo, e colocar nele um pouco de arte. Talvez devêssemos pensar nas memórias em si como uma forma de arte, que o trabalho de verdade começa assim que a tinta atinge a tela. E se lembrar que um obra de arte nunca está terminada, simplesmente abandonada.